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quinta-feira, 23 de julho de 2026

Tenho dias


 Tenho dias que respirar é um acto heróico...levantar da cama é uma façanha...estar de pé é esmagador. Demasiado frágil para sustentar o corpo e lutando para me manter à tona e abraçar a vida com carinho.

Tenho dias que as forças me abandonam...que caminhar é uma batalha e continuar é quase impossível...mas continuo mesmo sem forças e por vezes sem vontade recuso-me a desistir mesmo morrendo tanta vez.

Tenho dias que só quero ficar quieta longe de tudo e de todos em silêncio. Mesmo que a tentação por vezes seja fechar os olhos e deixar-me ir para encontrar enfim a paz que desejo.

Quanto tempo tenho não sei...sei apenas que não vou ter tempo para tudo que queria fazer. Só agora recordo momentos que perdi e que não têm preço...beijos que não dei...palavras que não disse...abraços que não senti.

Embora tenha deixado pedaços de mim espalhados pelos caminhos que percorri estou presa dentro de um corpo que já não sinto meu...apenas vivendo o intervalo entre a chegada e a partida como se o tempo repousasse nos meus braços serenamente.

Por vezes estou viva...por vezes não respiro...por vezes não sou eu e aqui já não é o meu lugar. Sou o fundo do fim do fundo. Dentro de mim matei a vida. Fui princesa entre as demais e quis ser rainha...mas nada sou e nada espero...sou um prenúncio de morte...coração em chaga...alma cansada sem memória de nada...como se este mundo já não fosse meu.

Tenho dias que me sinto como se estivesse morta e tento salvar o que ainda resta de mim nesta força invisível que ainda tem esperança que talvez haja um amanhã menos pesado onde a vida seja mais suportável.

Tenho dias que renasço para morrer de novo até onde não aguentar mais e quando não tiver mais lágrimas deixem-me lavar o meu rosto com essência de ternura e aroma de rosmaninho como se fosse menina ainda de cabelos soltos ao vento correndo entre as searas na minha doce planície.

O coração ainda pulsa e eu insisto em existir!


Rosa Maria (Maria Rosa de Almeida Branquinho)




sábado, 20 de junho de 2026

É nas ondas dum mar revolto!


 É nas ondas dum mar revolto que eu me deito e espero

Por um doce murmúrio de amor...um abraço de ternura

Que me afague o corpo docemente e adoce o desespero

Desta agonia que não passa...deste viver quase loucura


É na doce volúpia da noite que me deixo cair exangue

Na sombra da minha ausência...no lado obscuro de mim

Na memória da minha pele...palavras escritas a sangue

Como uma chama morrendo lentamente...perto do fim


É na solidão da noite que guardo a dor...bebo as lágrimas

Lambo as feridas...calo o desalento não mostro a ninguém

Envolvo o meu corpo no manto negro das minhas mágoas

Sem saber se é por mim que choro...se por outro alguém


É quando a madrugada se faz silêncio que a dor adormece

É esse o meu momento...é aí que meus fantasmas liberto

Abraço a minha alma e cruzo as minhas mãos em prece

É esse o momento que para a triste realidade desperto


É na noite que a suave carícia do vento toca a minha alma

É na noite que dormes no meu sonho me fazes madrugada

Trazias estrelas aos meus olhos...foste luz na noite calma

Era aí que na magia dos meus sonhos te fazias alvorada


É na noite que me visto de poesia e me dispo de mim

Que o silêncio me abraça...que me envolve a escuridão

Que a ausência se veste de ilusão e a dor me fala de ti

E é na madrugada que as palavras vestem de solidão


Rosa Maria ( Maria Rosa de Almeida Branquinho )

sábado, 23 de maio de 2026

A morte é o limiar da liberdade!

A morte definitivamente vai apagar todos os ontens da existência...todos os erros e todos os acertos. Nada é eterno. Não importa quanto tempo me resta...importa se na memória de quem fica valeu a pena ter vivido contabilizado no amor que deixei...na recordação de quem me amou.

Há dias que estar aqui pesa demais...viver cansa quando as forças nos estão abandonando. Quando o coração está no limite e fingindo que tudo está bem. Quando respirar é tão difícil e viver mais um dia dói muito.

É estreita a porta que me chama do outro lado do tempo...é negra a noite que me abraça e distante a paz que desejo. Mesmo á beira do abismo não aprendi a voar. Deixo os caminhos que não trilhei...os sonhos que não vivi...os amores que queria sentir...os versos que não escrevi e a felicidade a que tinha direito.

Tudo é passageiro...nas mãos do tempo aguardo a partida porque aqui já não é o meu lugar. Levo apenas as memórias de cheiros e de rostos de pessoas que amei e já não estão cá. Levo no meu coração a saudade do amor maior...dos seres que são carne da minha carne...sangue do meu sangue...meu altar e minha oração.

Nada sei do tempo nem da eternidade. Nada sei da vida...esqueci o passado e temo o futuro...dói-me o presente.

Sou um mistério...um ser mortal com princípio e fim. Fugaz passagem por esta vida sem sentido. O mundo é um desvario que vai continuar mesmo sem mim. Sou uma sombra apenas. Já não há no meu olhar campos verdes salpicados de papoilas vermelho sangue...nem o vento suão da minha amada planície a afagar-me o rosto...apenas trago no coração dores que transformei em sorrisos e mágoas que quero esquecer.

A morte é mesmo a nossa mais fiel amante. Nasce connosco e todos os instantes nos acompanha em silêncio como uma fugaz vela que se vai apagando lentamente até ao instante final.

A vida é irrecuperável...Repouso enfim do cansaço de existir!


Rosa Maria (Maria Rosa de Almeida Branquinho)

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Eu sem mim


 No meu corpo dorme a planície...no meu coração as giestas

O crepúsculo da noite...nos meus braços o cansaço dos dias

Nos meus dedos terra ardente...no meu olhar tristes violetas

Horas mortas...tempo sem nada eu sem mim as mãos vazias


E a noite sem claridade e a penumbra doendo...doendo tanto

A vida longa...a insónia densa e os sonhos no corpo sufocados

O desejo amordaçado e o vestido vermelho molhado de pranto

E a minha sombra errante vagando por entre solitários prados


Agreste o caminho...um breve adeus...uma esperança adiada

Gestos errados num espaço sem tempo...numa noite sem luar

Rente ao meu corpo há um vazio sem fim...uma alma rasgada

O meu corpo sem ti...os braços sem mim...uma onda sem mar


Escrevo-me e escrevo-te...apago-te...chamo-te e esqueço-me

Engulo as lágrimas e na nudez do meu corpo sacio-me de ti

Cubro-me com o véu dos sonhos da doce ilusão despeço-me

Em cada ruga do meu rosto te encontro tão distante de mim


No silêncio do meu olhar cai chuva...morre a noite no poente

Paira sobre mim a bruma no profundo abismo do esquecimento

Adormecida sobre a ternura do meu corpo de solidão fremente

Desfiando as memórias caminho inventando sonhos ao vento


No meu corpo sopra o vento do meu rosto esvai-se o tempo

Triste e silencioso...o meu olhar te chama...tão docemente

Murmurando-te um adeus como se fosse um doce lamento

Dá-me o calor dos teus braços e beija-me o rosto levemente


Rosa Maria ( Maria Rosa de Almeida Branquinho )