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sexta-feira, 11 de Abril de 2014

É tarde meu amor...


É tarde meu amor...o céu já não tem estrelas e o sol adormeceu esperando mais uma noite sem gestos...tão tristemente silenciosa morrendo em cada sulco da minha pele...em cada olhar vazio no fundo da madrugada onde nasce a solidão e as minhas mãos adormecem vazias como quem afaga o silêncio...como quem acaricia as últimas rosas que floriram no meu corpo.
É tarde meu amor...já nem sinto a alma...o meu coração gelou...as asas estão quebradas e os sonhos já não sabem voar...o meu corpo adormeceu deitado nos meus braços...num lugar vazio por entre as cinzas da memória onde talvez sejas apenas a recordação de um sonho onde não estou.
É tarde meu amor...mas ainda te quero dizer que desejo a tua nudez acariciando os meus dedos...o teu corpo no meu corpo como uma suave melodia de Outono...como um poema escrito em silêncio nas minhas mãos de espera...na minha boca murmurando desejos...na minha voz sussurrando como quem pede...como quem morre na noite vazia.
É tarde meu amor...a minha alma despiu-se de mim...a dor deixou de doer e as feridas vão sarar com o tempo...na recordação do que fomos e na saudade do que deixámos de ser e que ficou guardada num lugar que é apenas meu...num instante que se perdeu na memória do tempo onde se desfizeram em cinzas as últimas chamas de um verão em Dezembro.
É tarde meu amor...já não me consigo inventar para voltar a ser criança...no fundo dos meus olhos já não há arco-íris...a minha boca apagou o sorriso e o meu rosto perdeu a beleza de um tempo de onde não se pode voltar...pedaços que não se podem juntar e mágoas que não se podem apagar...amantes que não se conseguem inventar e mãos que não se conseguem entrelaçar...sonhos que se desfizeram em cinza nos corpos que não adormecem no mesmo leito.
É tarde meu amor...de nós apenas restou o silêncio adormecido no meu olhar e o Inverno dos teus gestos...os fios de lembranças que escorrem dos meus dedos como carícias adormecidas...murmúrios silenciosos ecoando no entardecer da ternura onde o teu corpo é apenas o espelho embaciado dos meus sentidos e o meu corpo é apenas um corpo só.
É tarde meu amor...as noites já não me sussurram desejos...a minha pele já não se perfuma de amor e a minha boca é apenas a memória de um beijo num murmúrio silencioso...um sopro de eternidade de quem já nada espera.


domingo, 23 de Março de 2014

Fui além do meu limite...


Fui além do meu limite...muito além das minhas forças..caí
Como se fosse aquela flor que murchou regada pelo pranto
Que escorre gota a gota na terra infecunda que já foi jardim
Rosto que já foi alvorada e hoje é um sorriso de desencanto

Fui além do meu limite...matei o que de bom havia em mim
Apaguei o brilho do meu olhar e o sorriso que trazia no rosto
Abracei-me ao meu corpo em silêncio e docemente adormeci
Sobre as cinzas de quem fui...sepúlcro frio do meu desgosto

Fui além do meu limite...amei e perdi...estive aqui e não vivi
Quis voar e não voei...inventei umas asas tecidas de ilusão
E bordadas de desengano...que se quebraram e eu não senti
Tombei na terra fria e adormeci nos braços frios da solidão

Fui além do meu limite...cruzei as mãos sobre o meu peito
Em prece chamei anjos e demónios...fui ao céu e ao inferno
Toquei levemente o amor com os dedos frios do esquecimento
Entreguei o meu corpo ao nada de um momento que foi eterno

Fui além do meu limite...morreu o tempo nas minhas mãos vazias
Descobri que para além dos meus sonhos não tinha nada de meu
Apenas ficou presa em mim a lembrança deste corpo onde vivias
Como um murmúrio silencioso...onde a ternura não amanheceu

Fui além do meu limite...perdi-me da alma...ausentei-me de mim
Fiquei esperando serena pela ausência que a meu lado adormece
Na escura noite que de madrugada chega...sem ter luz...nem fim
Nos lençóis cobertos de mágoas ...na ilusão que se desvanece

Fui além do meu limite...nada me habita...nem a minha pele
Que é um vulcão adormecido por entre as trevas do meu ser
Jardim de rosas negras onde repousa o meu corpo de mulher
E uma lágrima escorre silenciosa no meu rosto a entardecer

domingo, 2 de Março de 2014

Deixa flores nas minhas mãos...


Quando as tuas mãos geladas deixarem de me afagar na noite
E o silêncio escorrer gota a gota entranhando-se no meu corpo
Desenhando nos umbrais do tempo o meu nome no horizonte
Que o silêncio seja uma valsa triste...eco de um sonho louco

Quando na noite se despe o luar...escuto uma voz a soluçar
É uma rosa negra a entoar docemente uma melodia de amor
Rasgo as sedas do desejo...abraço o meu corpo e fico a sonhar
Tangendo na alma ecos do passado num fado de mágoa e dor

Quando as palavras da minha boca se apagarem e o meu olhar
Se transformar na cinza fria onde bordo docemente a nostalgia
E quando o meu corpo fremente de amor deixar de te procurar
É porque a minha alma se despiu do corpo que foi teu um dia

Quando de violetas perfumar o meu leito e de silêncio o olhar
Deixa que a ausência se deite sobre mim e afague a minha dor
Que enfim me eleve ao céu como se fosse uma estrela a brilhar
E quando o meu coração parar...deixo-te uma lágrima de amor

Quando eu fôr apenas uma flor tombada no chão...dá-me a mão
E guia a minha alma pelos corredores infinitos do esquecimento
E quando a noite cair...vem beber a saudade e brindar à solidão
Na madrugada fria da lonjura...serás o mármore onde me deito

Quando o meu corpo descer à terra e a minha alma subir ao céu
E minha pele se despojar de tudo que a vestiu...acende uma vela
E antes que a bruma eterna desça sobre mim o seu vaporoso véu
Deixa flores nas minhas mãos como se eu ainda fosse primavera


sexta-feira, 14 de Fevereiro de 2014

Queria regressar a mim...


Queria por um momento apenas voltar à casa da minha infância...ao regaço quente da ternura como quem volta ao útero materno...como quem amanhece de um sonho que nos traz memórias de cheiros e imagens guardadas na lembrança da menina que regressa como ave ao ninho...sem saber se está chegando ou nunca partiu.
Como se voasse volto à minha doce planície de espigas vestida e de rubras papoilas salpicada...onde saciei a sede das lonjuras...nesse horizonte por onde deixo o meu pensamento flutuar num tempo que passava por mim como uma suave brisa tocando os meus cabelos ainda negros...o meu rosto ainda sereno e onde os braços da minha mãe eram a minha casa...o meu porto seguro.
Caminhei tanto pelos labirintos da memória...pelos corredores da infância procurando a ternura que me afagava o corpo e as estrelas que brilhavam no meu olhar de menina...o tempo dos sorrisos...tão efêmeros como tudo o que não volta...paisagens e lugares que guardo dentro de mim...retratos a que o tempo roubou as cores e rostos que apenas na memória do meu olhar ainda vivem.
Depois de tanto caminhar com a saudade a doer na lembrança sinto que o tempo já não é igual...que as noites já não são serenas e o sol já se escondeu na imensidão da planície como se fosse o pavio de uma vela a apagar-se...um manto de silêncio que me envolve num terno abraço que me leva de volta à casa da minha infância como se um anjo me levasse nas suas asas...como se uma nuvem me acariciasse o olhar...como se mãos invisiveis tocassem as minhas num silêncio que apenas a minha alma ouve.
E serenamente antes que chegue a alvorada...antes que o sonho se transforme em espuma volto à realidade do aqui e agora e deixo o lugar da memória sentindo um suave aroma de rosmaninho como se uma aurora antiga afagasse o meu corpo ou se de repente ouvisse chamar o meu nome e esse nome não fosse meu e essa voz que me chama fosse apenas o eco longínquo de mim onde permanecem vivas todas as lembranças da menina que de esperanças se veste em cada regresso.