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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Talvez haja um dia


Talvez haja um dia em que para além das minhas asas voarei

E consiga enfim no fundo do tempo...adormecer serenamente

Com o silêncio preso nas mãos...esse nada a que me entreguei

Num caminho sem retorno que me levará além do sol poente


Talvez haja um dia em que a noite em mim serena amanheça

Haverá talvez um lugar onde nos podemos de novo encontrar

Sem que o passado nos lembre mágoas...talvez a alma esqueça

Talvez meu amor...eu escreva um poema que fale do teu olhar


Talvez haja um dia que deixe de saber de mim e te reencontre

Abraçado à minha sombra...das minhas recordações desvanecido

Talvez um dia de mim parta procurando a menina que fui ontem

E vestida de madrugada...talvez encontre o meu corpo esquecido


Talvez haja um dia que esteja em mim de corpo e alma despida

E num doce momento nas mãos nuas do vento me deixe embalar

Para lá desse abismo onde o tempo parou no crepúsculo da vida

E aí...olhemos as mesmas estrelas e o meu olhar seja o teu olhar


Talvez haja um dia que do outro lado do espelho me veja criança

Com o olhar cheio de azul e correndo de cabelos soltos ao vento

Talvez aí...das minhas mãos nasçam rosas vestidas de esperança

E numa taça de ouro fino...brindemos serenos à morte do tempo


Talvez haja um dia em que nos brancos lençóis da madrugada

Consiga ainda encontrar um raio de sol...uma manhã luminosa

E lá...no fundo do meu olhar encontre ainda um fio de alvorada

Para tecer a minha mortalha de pura seda...diafana e vaporosa


Rosa Maria (Maria Rosa de Almeida Branquinho)

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

A noite...vestida de noite!


 A noite é um vestido negro e longo...uma rua deserta e escura por onde caminham as almas solitárias...as mulheres sem tempo carregando a nua verdade nos corpos vazios...nos passos perdidos. Mulheres sem vida...já não choram...não têm lágrimas.

A noite é o eterno deambular das almas triste e amarguradas abrigando a semente do amor no regaço que lhes deu vida...no repouso dos corpos que nasceram de mães já cansadas e sem espaço para a ternura...sem carinho e sem guarida.

A noite é a morte do amor dançando sobre o sepúlcro da ilusão numa ausência acompanhada de gestos sem idade...ecos sem voz e corpos sem emoção. Há na noite segredos e medos...ilusões e devaneios e tantas almas feridas caminhando nas sombras da madrugada e cinzeladas nos rostos da renúncia onde se deitam os corpos com sede de amor.

A noite é o leito das mulheres sem nome e sem perguntas...bebendo a solidão até ao último trago adormecem nos braços da escuridão onde há gritos ecoando na noite...no tempo que se foi sem ter ido...verdades guardadas...vontades escondidas...invernos e infernos onde os corpos são uma teia sonhos desfeitos.

A noite me chama nas esquinas sombrias...num grito mudo num vazio sem fundo...nos sons dum silêncio amargurado que a noite sussurra num eco profundo...num silêncio sem grito.

Mais uma vez noite encontro a tua face feita de luzes e sombras...sem sono e sem sonhos. Tudo é cinza e cansaço. Apenas vazio e mais nada.

A ti noite deixo os meus versos magoados como se fossem pedaços de vida...eternos papéis esquecidos nas gavetas da memória como se fosse um murmúrio de amor...uma rosa que desfolho docemente...uma mágoa que bebo lentamente.

A noite trás restos de verdade...deixa a nú todas as tempestades e vazios.

Rosa Maria ( Maria Rosa de Almeida Branquinho )