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sábado, 23 de maio de 2026

A morte é o limiar da liberdade!

A morte definitivamente vai apagar todos os ontens da existência...todos os erros e todos os acertos. Nada é eterno. Não importa quanto tempo me resta...importa se na memória de quem fica valeu a pena ter vivido contabilizado no amor que deixei...na recordação de quem me amou.

Há dias que estar aqui pesa demais...viver cansa quando as forças nos estão abandonando. Quando o coração está no limite e fingindo que tudo está bem. Quando respirar é tão difícil e viver mais um dia dói muito.

É estreita a porta que me chama do outro lado do tempo...é negra a noite que me abraça e distante a paz que desejo. Mesmo á beira do abismo não aprendi a voar. Deixo os caminhos que não trilhei...os sonhos que não vivi...os amores que queria sentir...os versos que não escrevi e a felicidade a que tinha direito.

Tudo é passageiro...nas mãos do tempo aguardo a partida porque aqui já não é o meu lugar. Levo apenas as memórias de cheiros e de rostos de pessoas que amei e já não estão cá. Levo no meu coração a saudade do amor maior...dos seres que são carne da minha carne...sangue do meu sangue...meu altar e minha oração.

Nada sei do tempo nem da eternidade. Nada sei da vida...esqueci o passado e temo o futuro...dói-me o presente.

Sou um mistério...um ser mortal com princípio e fim. Fugaz passagem por esta vida sem sentido. O mundo é um desvario que vai continuar mesmo sem mim. Sou uma sombra apenas. Já não há no meu olhar campos verdes salpicados de papoilas vermelho sangue...nem o vento suão da minha amada planície a afagar-me o rosto...apenas trago no coração dores que transformei em sorrisos e mágoas que quero esquecer.

A morte é mesmo a nossa mais fiel amante. Nasce connosco e todos os instantes nos acompanha em silêncio como uma fugaz vela que se vai apagando lentamente até ao instante final.

A vida é irrecuperável...Repouso enfim do cansaço de existir!


Rosa Maria (Maria Rosa de Almeida Branquinho)

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Eu sem mim


 No meu corpo dorme a planície...no meu coração as giestas

O crepúsculo da noite...nos meus braços o cansaço dos dias

Nos meus dedos terra ardente...no meu olhar tristes violetas

Horas mortas...tempo sem nada eu sem mim as mãos vazias


E a noite sem claridade e a penumbra doendo...doendo tanto

A vida longa...a insónia densa e os sonhos no corpo sufocados

O desejo amordaçado e o vestido vermelho molhado de pranto

E a minha sombra errante vagando por entre solitários prados


Agreste o caminho...um breve adeus...uma esperança adiada

Gestos errados num espaço sem tempo...numa noite sem luar

Rente ao meu corpo há um vazio sem fim...uma alma rasgada

O meu corpo sem ti...os braços sem mim...uma onda sem mar


Escrevo-me e escrevo-te...apago-te...chamo-te e esqueço-me

Engulo as lágrimas e na nudez do meu corpo sacio-me de ti

Cubro-me com o véu dos sonhos da doce ilusão despeço-me

Em cada ruga do meu rosto te encontro tão distante de mim


No silêncio do meu olhar cai chuva...morre a noite no poente

Paira sobre mim a bruma no profundo abismo do esquecimento

Adormecida sobre a ternura do meu corpo de solidão fremente

Desfiando as memórias caminho inventando sonhos ao vento


No meu corpo sopra o vento do meu rosto esvai-se o tempo

Triste e silencioso...o meu olhar te chama...tão docemente

Murmurando-te um adeus como se fosse um doce lamento

Dá-me o calor dos teus braços e beija-me o rosto levemente


Rosa Maria ( Maria Rosa de Almeida Branquinho )