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quarta-feira, 7 de agosto de 2024

Não sei se quero que o tempo me dê mais tempo!

Vim do fundo do tempo antes de ser vida e regresso a mim como quem volta ao ninho materno...ao aconchego da ternura. Sou uma ave que desistiu de voar. Sou o chão onde todos pisam...já nada me pertence nem o meu nome é meu. Sobrou tão pouco de tanto.

Dei tantos passos viajei por tantos mundos sem destino certo...lá longe no tempo onde a memória me sorria e as madrugadas tinham cheiro de alecrim e o meu corpo jovem flor.

Voltei ao outro lado do tempo onde todo o meu corpo era juventude...o meu rosto formosura e as minhas mãos pequeninas ainda estavam cheias de sonhos como se a vida fosse eterna e o amanhã uma suave Primavera onde queria escrever uma linda estória de amor...deixei que o fogo me beijasse nesse amor primeiro e tive tanta saudade de mim.

Aceitei que nada sei do tempo...tanto caminhei e não cheguei a lugar nenhum... Fechei os olhos à vida e tive de aceitar que o meu corpo envelheceu... que o meu rosto perdeu o brilho...que os meus olhos se vão fechar e que o meu reino não é deste mundo...é do lugar de onde não se volta.

O tempo tudo apaga e é tão tarde...dei ao tempo tudo que sou e já não sei que sonhos tinha. Tudo é fugaz...a vida é apenas uma passagem...uma tão breve passagem. O tempo não espera...tudo será eterno num instante.

Já não procuro o perfume das flores nem a doce suavidade das rosas

afagando a minha pele envelhecida pelo tempo e fustigada pelas dores da vida.Trago uma dor calada no fundo da alma e o cansaço de mais um dia...mais uma noite adormecendo em cama fria...gelando-me o corpo e a alma como uma lápide.

E se alguém disser que morri...vistam o meu corpo de diáfana seda e de rosas vermelhas cubram o meu leito eterno e não deixem que o meu rosto se dissolva no escoar do tempo. Chamem o meu nome para sentir que existi e fui alguém que por este mundo passou...sombra...mulher ou ave.

Hoje...apenas hoje quero adormecer perto de mim!


Rosa Maria (Maria Rosa de Almeida Branquinho)



sábado, 27 de julho de 2024

Cansaço


 Tenho no corpo cansaços...nas mãos pedaços de vento

Nos meus braços embalo desejos bordados de carmim

No peito flores envelhecidas...tecidas de dor e lamento

Nos meus olhos trago soluços e tanta saudade de mim


Adormece o meu corpo nas folhas de Outono envolto

Foi sol nascente...hoje é ocaso pelo tempo entristecido

Habitado por silêncios e vestido de penumbra jaz morto

Esperando a eternidade vai vivendo de saudade vestido


No meu corpo te esperei...na tua ausência me chorei

Na minha loucura te chamei como se chamasse a vida

Em cada poema te escrevi...em cada rima me desnudei

Em cada gole de solidão que bebi...sangrei esta ferida


Os anos passaram...os desenganos...as noites e os dias

Os sonhos que se desfizeram...as ilusões que morreram

Os carinhos que se perderam... nas noites tão sombrias

As rugas e os cansaços que meus olhos entristeceram


Morrem-me na memória...as Primaveras que não vivi

Num grito de despedida que tristemente grito ao tempo

Num beco escuro deixo escrito a sangue tudo que senti

Labirinto sem saída...passos perdidos do meu lamento


São lírios os meus olhos...magoados e tristes...sem vida

Negros e sombrios são da dor a agonia do amor a solidão

São o silêncio da noite escura...duas portas sem guarida

São da luz a escuridão...estrelas cadentes na imensidão


Rosa Maria (Maria Rosa de Almeida Branquinho)





terça-feira, 9 de julho de 2024

É por mim que grito


 É por mim que grito em cada anoitecer...em cada sonho...em cada noite triste e solitária...em cada amanhecer cansada e vazia.

É por mim que grito em cada novo dia...sou eu que desnudo a alma em cada palavra que escrevo...em cada silêncio que calo...em cada morte que me devora o corpo.

É o meu nome que chamo num sítio escuro e ermo dentro de mim...é a carvão que me escrevo...é a negro que me pinto na lápide fria onde me deito...no nevoeiro que me encobre e me esconde da vida.

É por mim que grito em cada olhar vazio...é com sangue que me escrevo e descrevo e é aqui neste papel amarelecido que dispo o meu manto e grito os meus sonhos...que deixo o meu pranto...que sepulto as minhas sombras e entendo as minhas mãos vazias...é aqui que deixo restos de chamas esquecidas por dentro do meu corpo.

É aqui que sou uma sombra sem nome...que grito à noite a urgência da pele...que sorrio tristemente de lábios frios e mãos vazias...que o silêncio me queima e a morte me dói...o vazio me sufoca...o negrume se desprende do fundo dos meus olhos e o espelho escurece.

Deixei as palavras escorrerem sangue com que me escrevo...desnudei-me em cada verso...chamei-te em cada rima...voei e perdi-me em cada letra...morri em cada poema...em cada lágrima que desagua em cada prosa...em cada silêncio nas entrelinhas de cada traço...em cada sussurro onde escrevi todos os sonhos de amor.

Guardei todas as palavras dentro dum livro onde não estás...numa estrada de silêncio onde não me encontro...num poema tecido de amor e amarelecido pelo tempo...envolto na penumbra das minhas mãos onde escrevo os teus passos num verso sem nome onde deixo uma lágrima morrer dentro de mim.

É aqui que relembro os meus sonhos adormecidos sepultados neste papel lido e relido. É aqui que choro pela vida e chamo pela morte.


Rosa Maria ( Maria Rosa de Almeida Branquinho )

sexta-feira, 28 de junho de 2024

Amor Efémero


 É tão efémera a carne meu amor...como efémero foi o amor

Rasgando-me o corpo como punhal...sob o lençol de mágoa

Onde a dor anoitece em silêncio e o espinho adormece a flor

Que repousa na solidão tão fria como fria é esta doce lágrima


Que escorre tristemente do meu olhar inundando de penumbra

O meu rosto que chora por ti amor...ou será por mim que chora

No instante efémero em que me vejo menina vestida de espuma

Desabrochando rosa em botão...como se o tempo fosse o agora


É tão efémera a madrugada...como efémera uma noite de amor

Deitada sobre a tua sombra...repousa a minha alma já dormente

Nas minhas mãos já sem corpo...no meu rosto marcado pela dor

Adormecido nos teus olhos...onde vai envelhecendo lentamente


É tão efémera a paixão...como efémeras foram as rosas rubras

Que me adornaram na Primavera e que me vestiram de ilusão

Neste corpo que já foi rio e hoje é margem de negras espumas

Tão efémeros foram os sonhos...tão frio e chuvoso foi o Verão


Tão efémera foi a tua boca...como insaciável foi a minha sede

Silenciosa foi a minha espera pelas mãos que não me afagaram

Tão efémeras foram as horas em que fui em ti um amor ardente

E foste em mim presença ausente...restos que em mim ficaram


Tão efémero foi o sorriso que levemente aflorou ao meu rosto

Foi tão breve esse instante...tão doce esse momento de ternura

Como efémeros os dias em que senti na pele o calor de Agosto

Foi tão breve esse tempo em que me entreguei inocente e pura


Tão efêmeros os momentos em que a minha pele acariciaste

Como se fosses um corpo sem vida...uma perdida lembrança

Onde ardeu a nostalgia dessa mulher que em vida sepultaste

Tão efêmera a ilusão...como efêmero esse sonho de criança

Rosa Maria ( Maria Rosa de Almeida Branquinho)