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domingo, 11 de fevereiro de 2024

À margem da vida...


 À margem do meu corpo a vida a escorrer entre os dedos

Como um rio de águas lamacentas...um abraço de vazio

O silêncio preso nas mãos...o inferno da almas...os medos

As brumas...as sombras e o nevoeiro que envolve este rio


Entardeci...sou a noite adormecida...o silêncio gemendo

Um rosto sem idade...um sorriso sem cor...olhar sem luz

Um murmúrio sem voz e esta solidão em mim crescendo

Caminhando por entre as brumas carrego a minha cruz


Tudo é tempo...tudo é breve...uma noite num momento

Desfolhei a vida num palco onde nunca me encontrei

Escrevo-me e reescrevo-me e fico assim folha ao vento

Entre o mar e a tempestade no cais da ilusão naufraguei


Perdi o norte...no caminho agreste gastei meus passos

Fiquei em ruínas e esvaziei-me numa casa assombrada

Nua de mim...envolvi-me no silêncio dos meus braços

Deixei ficar no caminho a menina vestida de alvorada


Guardo nas mãos um grito...silêncio que o tempo deixou

Entre o céu e o infinito entre o amanhecer e o entardecer

O futuro...passado e o presente tudo em mim naufragou

Vida e morte...uma eterna ilusão num verso por escrever


O meu rosto é um espelho onde não me vejo não me quero

O meu olhar pétalas negras onde a claridade vai morrendo

O meu coração é um cais deserto onde já não me espero

A minha alma é lago negro que o tempo vai escurecendo


Rosa Maria ( Maria Rosa de Almeida Branquinho)





segunda-feira, 9 de outubro de 2023

Lá no fim de tudo


 Lá no fundo do tempo...no fim de tudo não há mais nada...nem certezas...nem restos...nem ecos...nem laços. Na beira do abismo...no fundo do labirinto nem um rasgo de luz...apenas o sabor amargo da solidão...os ecos profundos do silêncio nas horas que se perderam do tempo...da vida que se perdeu de mim.

Lá onde a terra é seca e árida e a noite não sabe que é noite...onde todos os sonhos envelhecem e vivem esquecidos todos os gemidos de amor e o corpo morre na amargurada solidão da carne...as esperas são ausências...os muros são sonhos desfeitos...os desejos são lugares esquecidos no fundo da alma.

Lá nessse lugar onde não há tempo... onde guardo as lágrimas como memórias de naufrágio...tristes caricias que afagam o meu rosto onde a sombra é pedra e os caminhos são moradas de ciprestes.

Lá nesse lugar sem luz onde a bruma cobre a minha nudez e o meu rosto se dissolve na sombra do entardecer e onde passo a passo percorro os caminhos vazios da renúncia...iludindo os gestos...desenhando silêncios e bebendo mágoas.

Lá onde as ilusões agonizam e o meu olhar é um grito silencioso...a minha sombra é o colo onde me deito e a cinza das palavras é o desencontro das bocas e todos os sorrisos têm medo de existir... onde os meus olhos são o lago sombrio de todas as recordações...a agonia de todos os instantes.

Lá na rua da penumbra...no entardecer dos meus anseios onde a solidão cresce nas horas de infinita mágoa de indefinida nostalgia.

Lá onde o infinito procura o meu corpo e as águas revoltas do amor adormecem nas paredes frias do silêncio...os sonhos são aves negras com rumos incertos...ecos perdidos suspensos no grito de um olhar...nos desejos diluídos no tempo...nas palavras escritas a sangue...sepultura de todas as ilusões.

Lá onde os corpos são memórias de noites por cumprir...onde o desejo morre todos os dias...onde a luz não rompe a escuridão...lá onde fica a sepultura de todas as promessas...dispo-me de mim e entrego-me nas asas do vento...na solidão do tempo...no manto doce da eternidade.


Rosa Maria ( Maria Rosa de Almeida Branquinho )


terça-feira, 25 de julho de 2023

A maldição do poeta


 A maldição do poeta são palavras pedra na sua existência

Numa louca procura...uma triste lucidez vestindo a quimera

Nas vielas da solidão bebem o trago da sua própria demência

Afortunados os poetas que morreram quando era Primavera


São gemidos de agonia a voz do poeta...ecos mudos de dor

Rasgando dolorosamente a pele ferida pelo beijo da solidão

E embalando suave e docemente todos os sonhos de amor

Todas as pétalas de rosa e todos os espinhos presos na mão


De negro se veste a alma do poeta...negro da cor da noite

Da noite que não amanhece...das sombras que o perseguem

Como uma andorinha perdida esvoaça sem rumo e sem norte

Desenhando no céu cinzento os poemas que o enlouquecem


Pinta os sonhos da côr da esperança e mergulha na escuridão

Como uma gota de nada...uma alma sem corpo...olhar sem luz

Uma sombra sem espaço nem tempo...sem amor e sem ilusão

Triste poeta esquecido da vida...carregas pesaroso a tua cruz


Vai esculpindo na pedra dura os poemas de amor por escrever

Como quem procura na luz da eternidade o sentido para a vida

Como quem procura na morte..esse poema ainda por nascer

Agrilhoado pelo amor que não ficou...para sarar a sua ferida


É um colar de silêncio as sombras do poeta...nevoeiro imenso

Gaivota ferida de asas cansadas voando para o lugar do nada

Vagabundo da noite derramando lágrimas sabendo a incenso

Erra de mãos vazias pedindo amor no regaço da madrugada


O poeta tem a alma exausta...o coração em chaga...quase morto

Preso entre o crepúsculo e a alvorada...abre as asas à imensidão

Procurando o inalcansável infinito...voa como um pássaro louco

Bebendo o cansaço das noites...pelas vielas imundas da solidão


Rosa Maria (Maria Rosa de Almeida Branquinho)


terça-feira, 2 de maio de 2023

Partirei com as andorinhas


 Partirei com as andorinhas para um lugar onde o calor do sol me aqueça procurando algo que não recordo...serão asas...talvez rosas ou a ternura de um olhar perdido naquele momento que nunca aconteceu. Coisas vãs ou importantes...memórias de outros dias onde a alma é a essência de tudo que existe aqui e além do que os nossos sentidos alcançam.

Despeço-me de mim e deixo para trás a dor...estar aqui ou ali que importa se a memória arde como um vulcão. É-me indiferente que o meu corpo queime como se no inferno estivesse...que os meus pés caminhem sobre brazas ou caindo no abismo...fugindo de mim...da vida e do mundo.

Despeço-me de mim, mas para onde vou que não vá comigo e ir comigo é carregar uma bagagem que me pesa como chumbo...lembranças de tudo que não regressa...de tudo que não fui e de tanto que procurei sem um lugar para chegar...sem um regaço para descansar.

O tempo é nada e os meus olhos sem luz...as minhas mãos sem gestos e os meus braços sem forças nesta viagem tão longa neste lugar tão escuro dentro de mim onde já não penso nem sinto. Porque o mundo é um deserto...um surdo pranto de sofrimento e dor.

Arrasto as asas em terra e já nem quero saber o sentido da vida...nem o acto de respirar...nem o adeus mudo do meu olhar despedindo-se em silêncio das dores antigas e apagando tudo à minha volta...nomes e rostos...lugares e cheiros vão-se desvanecendo e o perto é tão longe e a vida doendo tanto nesta estrada tão longa e os meus passos já sem forças para me acompanharem na subida tão íngreme...buraco sem fundo.

Quero abrir as asas e voar para esse infinito onde mora a eternidade. Aqui tudo me pesa e o tempo venceu-me num amanhã que não existe...onde cada dia que passa é mais um passo para o fim e deixo-me ir procurando a paz que só se encontra num outro espaço num outro tempo de onde não se volta.

Não sei para onde vou ou se existo...percorri tantos caminhos, enfrentei ventos e tempestades. Vi os meus sonhos tombarem como um castelo de cartas e meu corpo envelhecer e a minha alma sepultada num palmo de terra fria...ruína de um coração procurando forças para a última viagem.

E sei que por mais que eu caminhe não encontrarei os lugares que foram meus...o encantamento que só a inocência e o olhar puro da criança que fomos nos faz sentir...Tão longe e tão perto de mim.


Rosa Maria (Maria Rosa de Almeida Branquinho)