sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
Vagueio...
Vagueio nas veredas do sonho...caminhos tristes da saudade
Quimeras afogando a noite...e a escuridão rasgando a pele
Rochas rompendo a carne...tempo esperando a eternidade
Nos lábios sabor a sal...no corpo esquecido...sabor a fel
Vagueio nas veredas do sonho...perdi as pétalas pelo caminho
Perdi a ilusão na dor...amareleci com o tempo pisada no chão
Despojada de mim...sou a lágrima que cai...da rosa o espinho
Que queima a alma...que doi no peito...que é gole de solidão
Vagueio nas veredas do sonho...sou terra árida...mãos vazias
Sou uma manhã de ausência...sou a noite que não tem fim
Sou a esquina onde desenho...um triste olhar na escuridão
Perto de mim e tão longe...do caminho onde me esqueci
Vagueio nas veredas do sonho...passei só ao lado da vida
Perdi-me na escuridão do tempo...nas águas turvas do amor
Nas memórias de outro eu...cinzas do meu corpo sem guarida
Arrastado e ferido pela tempestade...morto e sepultado pela dor
Vagueio nas veredas do sonho...invento-me na fria madrugada
Papoila rubra solta ao vento...campo agreste...um resto de mim
Talvez a sombra da vida...outro lado da morte...na dor sepultada
No amor que inventei...nos braços vazios do sonho que não vivi
Vagueio nas veredas do sonho...fiquei na outra margem do rio
Na ausência de mim...na terra revolta do chão dos meus passos
Na cama vazia...no anoitecer da ilusão...no passado morto e frio
Do presente rasgado e desfeito...envolto no vazio dos braços
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
Morri ontem meu amor...
Morri ontem meu amor...vesti de cinza o meu corpo noite
Percorri os farrapos dos meus sonhos...amordacei os gestos
Vesti o olhar de estrelas cadentes...tentei enganar a morte
Prendi nas mãos a penumbra...caminhei sobre os meus restos
Morri ontem meu amor...docemente fechei as mãos ao cansaço
Caminhei sem mim...serena deixei correr todas as lágrimas
Adormeci no esquecimento...perdida entre o tempo e o espaço
Despi da noite o luar...desfolhei as rosas...bebi as mágoas
Morri ontem meu amor...o crepúsculo venceu a madrugada
Meu olhar tocou a mágoa...o meu corpo frio afagou a morte
Enlaçou nas mãos a eternidade...caminhou rumo à alvorada
Despido de ternura...adormeceu sereno nos braços da noite
Morri ontem meu amor...tão cansada de ser...tão nua...tão noite
Tão perdida de estar...tão ausente de viver...tão despida de sentir
Folha solta ao vento...nuvem negra vagando na sombra da morte
Por entre rosas...por entre cardos...deixa-me meu amor partir
Morri ontem meu amor...despida da dor que me cobre o corpo
Perdida dos sonhos que teci...rasgando os silêncios que gritei
Num tanger de viola...num sussurro quase mudo...quase rouco
Na minha alma quase branca...na eternidade que esperei
Morri ontem meu amor...no aconchego do teu corpo ausente
Envolta na solidão...ficou a lembrança duma lágrima perdida
Poisa em mim a noite...a noite negra...tangendo um canto dolente
Num murmúrio em silêncio...chamo por mim...choro pela vida
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
Perdi os sonhos...
Perdi os sonhos...feri as asas e deitei-me ao lado da noite
Bebi sózinha goles de tristeza...embriaguei-me de escuridão
Em silêncio me virei do avesso...em segredo chamei a morte
Na Primavera deixei a vida...no Outono me vesti de solidão
Amortalhei o corpo...adormeci os sentidos...parti sem mim
Fechei os braços...esqueci os abraços...fui da rosa o espinho
Tranquei as escadas...amordacei o amor no peito...entardeci
As mãos desfizeram-se em pó...o negro pó do meu caminho
O meu olhar é uma sombra na noite...vestido de violetas
Caminha alheio...de dor em dor...de esquina em esquina
Sem rumo e sem luz...em cada recanto a dor o espreita
Vestido de bruma...é misteriosa noite por entre a neblina
A dor já não é dor...os braços não são asas...a boca sabe a sal
As minhas mãos são folhas mortas...galhos secos de Outono
O meu corpo é do fogo as cinzas...um resto ténue de luar
Um leve sopro de vida...resquício magoado de um sonho
Nas mãos do destino...ficaram as rosas vermelhas...a vida
Um rosto que não é rosto...uma sombra esbatida na tela fria
Uma tristeza sem lamento...uma Primavera de sol despida
Nem mesmo um raio de luz perdurou na minha alma vazia
Caminhei de pés despidos por fundos e escuros labirintos
Procurei o meu vestido de baile...as grinaldas...as flores
As pétalas que teci...os sonhos que sonhei...tão infinitos
Mas em mim ficaram apenas três rosas...os meus amores
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
Alma Errante...
A minha alma está acorrentada à vida que me escorrega entre os dedos...perdida no fundo do tempo...sem corpo e sem mim...como um livro esquecido entre as mãos do destino...pisado e amarrotado no chão...perdido entre as flores arrancadas do meu peito...entre o espelho e a memória...num silêncio sem rosto...escuro e enevoado destino
Já não sei escrever palavras de amor...dos meus dedos ausentaram-se os poemas...naufragaram as rimas...a poesia ficou branca e fria...vestiu-se de vazio e amortalhou os desejos que se desprendiam do meu corpo...quando ainda a noite se vestia de ti e na minha pele não havia este perfume de solidão...os meus lábios não estavam secos de mágoa...e no meu olhar não escorria este mar...onde naufragaram todos os gemidos de amor.
Fecho os olhos e não estou...na manhã do meu silêncio há uma porta que se fechou...na dormência que ficou nos meus braços...há um grito errante nas esquinas de todos os dias...na imensidão de todas as noites... no queixume do meu olhar há um murmúrio de cansaço repleto de memórias naufragadas...num mergulho silêncioso na alma.
Há um sítio na minha alma onde não estou...e no meu corpo há um vazio onde não estás...entre esse espaço há uma imensa solidão a doer...e tantas sombras em silêncio e tantos fantasmas gemendo...e tantas noites errantes...tantos passos em silêncio...tanta ilusão morta e tanto peito sangrando.
Há uma rima nos meus poemas onde não te encontro...mãos que não te sentem...por isso escrevem vazios e soletram mágoas...murmuram tristezas.
Há um espaço no meu leito onde é inverno...o calor não se sente...a luz não rompe a escuridão...onde há um abismo sem fim...uma presença ausente...um deserto onde a noite não me acaricia os cabelos...onde o toque não se faz ternura e apenas a noite se deita sobre o meu corpo.
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