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quinta-feira, 26 de março de 2026

Como se fosse a ultima vez!

Como se fosse a ultima vez...deixa-me percorrer as lembranças...como se fosse um rio a lamber-me a pele...um oceano a rasgar-me a dor...uma leve brisa a afagar-me o rosto...sonhos a acaríciarem o meu corpo vazio como se a ausência não adormecesse no leito desse rio de águas estagnadas...desse corpo de sal e mágoa.
Como se fosse a última vez...deixa que a sangue e cal me escreva e solitária me recolha ao silêncio das palavras que um dia foram o vinho suave que do teu olhar bebi...como quem bebe a eternidade...como quem espera a morte e chama pela vida...como se o tempo não existisse...como se o meu corpo não morresse...como se a minha nudez não te esperasse...como se o abismo não fosse tão profundo e a minha vida não fosses tu.
Como se fosse a última vez...olha-me docemente e deixa no meu corpo um afago suave...bebe da minha boca o derradeiro suspiro de amor como se a solidão não existisse...como se a noite não fosse o regaço de todas as mortes...a ilusão de todos os momentos o desvanecer de todos os instantes...o fim de todos os sonhos.
Como se fosse a última vez...deixa que nas lages silenciosas do tempo...na lápide fria da ilusão adormeça os meus anseios...deixa que volte a ser pura e de alma branca e nua percorra os últimos degraus onde ausente caminho...da vida tão distante...do amor tão esquecida...de ternura tão despida...de infinito tão sedenta.
Como se fosse a última vez tece no meu corpo palavras de vento...esculpe no meu olhar palavras de amor...enleia-me nas tuas mãos e abraça-me como se a ausência não tocasse a minha pele...como se os lençóis gelados não fossem o manto da noite fria...a fantasia que o poeta inventa...os sonhos que se desvanecem na madrugada...na nudez que desprende de cada gesto vazio.
Como se fosse a última vez deixa que por instantes regresse ao teu olhar...amanheça nos teus braços perdidos. Rasga o vazio do meu corpo e prende-me na solidão da noite...eterniza os instantes no silêncio de uma lágrima...no murmúrio de um sorriso...nas cinzas de um grande amor.
Rosa Maria ( Maria Rosa de Almeida Branquinho ) 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Talvez haja um dia


Talvez haja um dia em que para além das minhas asas voarei

E consiga enfim no fundo do tempo...adormecer serenamente

Com o silêncio preso nas mãos...esse nada a que me entreguei

Num caminho sem retorno que me levará além do sol poente


Talvez haja um dia em que a noite em mim serena amanheça

Haverá talvez um lugar onde nos podemos de novo encontrar

Sem que o passado nos lembre mágoas...talvez a alma esqueça

Talvez meu amor...eu escreva um poema que fale do teu olhar


Talvez haja um dia que deixe de saber de mim e te reencontre

Abraçado à minha sombra...das minhas recordações desvanecido

Talvez um dia de mim parta procurando a menina que fui ontem

E vestida de madrugada...talvez encontre o meu corpo esquecido


Talvez haja um dia que esteja em mim de corpo e alma despida

E num doce momento nas mãos nuas do vento me deixe embalar

Para lá desse abismo onde o tempo parou no crepúsculo da vida

E aí...olhemos as mesmas estrelas e o meu olhar seja o teu olhar


Talvez haja um dia que do outro lado do espelho me veja criança

Com o olhar cheio de azul e correndo de cabelos soltos ao vento

Talvez aí...das minhas mãos nasçam rosas vestidas de esperança

E numa taça de ouro fino...brindemos serenos à morte do tempo


Talvez haja um dia em que nos brancos lençóis da madrugada

Consiga ainda encontrar um raio de sol...uma manhã luminosa

E lá...no fundo do meu olhar encontre ainda um fio de alvorada

Para tecer a minha mortalha de pura seda...diafana e vaporosa


Rosa Maria (Maria Rosa de Almeida Branquinho)

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

A noite...vestida de noite!


 A noite é um vestido negro e longo...uma rua deserta e escura por onde caminham as almas solitárias...as mulheres sem tempo carregando a nua verdade nos corpos vazios...nos passos perdidos. Mulheres sem vida...já não choram...não têm lágrimas.

A noite é o eterno deambular das almas triste e amarguradas abrigando a semente do amor no regaço que lhes deu vida...no repouso dos corpos que nasceram de mães já cansadas e sem espaço para a ternura...sem carinho e sem guarida.

A noite é a morte do amor dançando sobre o sepúlcro da ilusão numa ausência acompanhada de gestos sem idade...ecos sem voz e corpos sem emoção. Há na noite segredos e medos...ilusões e devaneios e tantas almas feridas caminhando nas sombras da madrugada e cinzeladas nos rostos da renúncia onde se deitam os corpos com sede de amor.

A noite é o leito das mulheres sem nome e sem perguntas...bebendo a solidão até ao último trago adormecem nos braços da escuridão onde há gritos ecoando na noite...no tempo que se foi sem ter ido...verdades guardadas...vontades escondidas...invernos e infernos onde os corpos são uma teia sonhos desfeitos.

A noite me chama nas esquinas sombrias...num grito mudo num vazio sem fundo...nos sons dum silêncio amargurado que a noite sussurra num eco profundo...num silêncio sem grito.

Mais uma vez noite encontro a tua face feita de luzes e sombras...sem sono e sem sonhos. Tudo é cinza e cansaço. Apenas vazio e mais nada.

A ti noite deixo os meus versos magoados como se fossem pedaços de vida...eternos papéis esquecidos nas gavetas da memória como se fosse um murmúrio de amor...uma rosa que desfolho docemente...uma mágoa que bebo lentamente.

A noite trás restos de verdade...deixa a nú todas as tempestades e vazios.

Rosa Maria ( Maria Rosa de Almeida Branquinho )


domingo, 18 de janeiro de 2026

Não ouças os meus lamentos

Não ouças os meus versos...não sintas o meu rosto

Não leias o meu corpo...não toques os meus medos

Não rasgues a minha pele...não sintas o meu desgosto

Não olhes os meus olhos...não leias os meus segredos


Não habites a minha nudez...não toques a minha solidão

Não chames os meu infernos...não apagues a minha luz

Não beijes a minha boca...não toques amor a minha mão

Não ouças os meus silêncios...não lamentes a minha cruz


Não pises os meus sonhos...não sintas as minhas mágoas

Não ouças os meus lamentos...não me fales das emoções

Não digas dos meus olhos...não bebas as minhas lágrimas

Não deites ao vento as cinzas das minhas ardidas ilusões


Não acaricíes o meu ventre...não acendas em mim a noite

Não amordaces a minha boca...não coles os meus pedaços

Não toques a minha eternidade...não sintas a minha morte

Não acarícies a minha sombra...não sigas os meus passos


Não lembres o meu nome...guarda esta imagem esmaecida

Não beijes o meu sorriso triste...não afagues o meu Outono

Não leias no meu rosto o tempo...não me procures perdida

Não desenhes no olhar agonias...não sonhes o meu sonho


Não toques as minhas mãos...deixa a dor cantar meus versos

Não sintas a minha alma...não escutes meu cansado coração

Não me chames...deixa-me perdida na noite onde me esqueço

Não ressuscites o meu corpo...deixa-o vagando na imensidão


Rosa Maria ( Maria Rosa de Almeida Branquinho )