No meu corpo dorme a planície...no meu coração as giestas
O crepúsculo da noite...nos meus braços o cansaço dos dias
Nos meus dedos terra ardente...no meu olhar tristes violetas
Horas mortas...tempo sem nada eu sem mim as mãos vazias
E a noite sem claridade e a penumbra doendo...doendo tanto
A vida longa...a insónia densa e os sonhos no corpo sufocados
O desejo amordaçado e o vestido vermelho molhado de pranto
E a minha sombra errante vagando por entre solitários prados
Agreste o caminho...um breve adeus...uma esperança adiada
Gestos errados num espaço sem tempo...numa noite sem luar
Rente ao meu corpo há um vazio sem fim...uma alma rasgada
O meu corpo sem ti...os braços sem mim...uma onda sem mar
Escrevo-me e escrevo-te...apago-te...chamo-te e esqueço-me
Engulo as lágrimas e na nudez do meu corpo sacio-me de ti
Cubro-me com o véu dos sonhos da doce ilusão despeço-me
Em cada ruga do meu rosto te encontro tão distante de mim
No silêncio do meu olhar cai chuva...morre a noite no poente
Paira sobre mim a bruma no profundo abismo do esquecimento
Adormecida sobre a ternura do meu corpo de solidão fremente
Desfiando as memórias caminho inventando sonhos ao vento
No meu corpo sopra o vento do meu rosto esvai-se o tempo
Triste e silencioso...o meu olhar te chama...tão docemente
Murmurando-te um adeus como se fosse um doce lamento
Dá-me o calor dos teus braços e beija-me o rosto levemente
Rosa Maria ( Maria Rosa de Almeida Branquinho )
Querida Rosa Maria (Sonhadora),
ResponderEliminarQue poema de uma força dramática e de uma beleza melancólica impressionantes! "Eu sem mim" não é apenas para ser lido; é para ser sentido na pele, tal é a carga sensorial que imprimiste em cada verso. Continuas sendo a Rosa vibrante e apaixonada que a todos encanta. Venha trazer teu Lírio para mim, pois a saudade continua. Beijinhos
Prezada Sonhadora, tua poesia é extremamente telúrica e imagética. Esculpes a solidão utilizando elementos da própria matéria do mundo: "no meu corpo dorme a planície", "nos meus dedos terra ardente", "no silêncio do meu olhar cai chuva". O corpo da poeta confunde-se com a própria paisagem do abandono. É uma alma rasgada que tenta reescrever-se e apagar-se ao mesmo tempo, num movimento doloroso de busca pelo outro que culmina na perda de si mesma ("eu sem mim as mãos vazias").
ResponderEliminarE o final do poema traz um sopro de ternura comovente. No meio da bruma e do abismo do esquecimento, o poema termina com um pedido de calor e um beijo leve, mostrando que, mesmo na noite mais densa da alma, a poesia ainda é o território onde se podem inventar "sonhos ao vento" e clamar pelo afeto. Deixo aqui meu beijo e um fraterno abraço.
Um poema sentido e bonito, Rosa
ResponderEliminardeixo o Parabéns ,meu carinho e abraço