quinta-feira, 7 de maio de 2026

Eu sem mim


 No meu corpo dorme a planície...no meu coração as giestas

O crepúsculo da noite...nos meus braços o cansaço dos dias

Nos meus dedos terra ardente...no meu olhar tristes violetas

Horas mortas...tempo sem nada eu sem mim as mãos vazias


E a noite sem claridade e a penumbra doendo...doendo tanto

A vida longa...a insónia densa e os sonhos no corpo sufocados

O desejo amordaçado e o vestido vermelho molhado de pranto

E a minha sombra errante vagando por entre solitários prados


Agreste o caminho...um breve adeus...uma esperança adiada

Gestos errados num espaço sem tempo...numa noite sem luar

Rente ao meu corpo há um vazio sem fim...uma alma rasgada

O meu corpo sem ti...os braços sem mim...uma onda sem mar


Escrevo-me e escrevo-te...apago-te...chamo-te e esqueço-me

Engulo as lágrimas e na nudez do meu corpo sacio-me de ti

Cubro-me com o véu dos sonhos da doce ilusão despeço-me

Em cada ruga do meu rosto te encontro tão distante de mim


No silêncio do meu olhar cai chuva...morre a noite no poente

Paira sobre mim a bruma no profundo abismo do esquecimento

Adormecida sobre a ternura do meu corpo de solidão fremente

Desfiando as memórias caminho inventando sonhos ao vento


No meu corpo sopra o vento do meu rosto esvai-se o tempo

Triste e silencioso...o meu olhar te chama...tão docemente

Murmurando-te um adeus como se fosse um doce lamento

Dá-me o calor dos teus braços e beija-me o rosto levemente


Rosa Maria ( Maria Rosa de Almeida Branquinho )

3 comentários:

  1. Querida Rosa Maria (Sonhadora),
    Que poema de uma força dramática e de uma beleza melancólica impressionantes! "Eu sem mim" não é apenas para ser lido; é para ser sentido na pele, tal é a carga sensorial que imprimiste em cada verso. Continuas sendo a Rosa vibrante e apaixonada que a todos encanta. Venha trazer teu Lírio para mim, pois a saudade continua. Beijinhos

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  2. Prezada Sonhadora, tua poesia é extremamente telúrica e imagética. Esculpes a solidão utilizando elementos da própria matéria do mundo: "no meu corpo dorme a planície", "nos meus dedos terra ardente", "no silêncio do meu olhar cai chuva". O corpo da poeta confunde-se com a própria paisagem do abandono. É uma alma rasgada que tenta reescrever-se e apagar-se ao mesmo tempo, num movimento doloroso de busca pelo outro que culmina na perda de si mesma ("eu sem mim as mãos vazias").
    E o final do poema traz um sopro de ternura comovente. No meio da bruma e do abismo do esquecimento, o poema termina com um pedido de calor e um beijo leve, mostrando que, mesmo na noite mais densa da alma, a poesia ainda é o território onde se podem inventar "sonhos ao vento" e clamar pelo afeto. Deixo aqui meu beijo e um fraterno abraço.

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  3. Um poema sentido e bonito, Rosa
    deixo o Parabéns ,meu carinho e abraço

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Amigos são velas acesas ao fundo da escuridão
alumiando o caminhode volta...a presença doce e
serena numa noite de tempestade...são o abraço
suave da vida...palavras ditas muitas vezes em
silêncio aquecendo a alma e o coração.

Um beijinho carinhoso a todos que por aqui passam.
Sonhadora